A arte de olhar



" Só se vê bem se pusermos o coração no olhar, para que o essencial não se torne invisível aos olhos."

Primeiramente faz-se necessário distinguir o ver do olhar. Quando acordamos a primeira coisa que fazemos é abrir os olhos e através da visão estabelecer nosso lugar no espaço do mundo, nos situar e nos localizar. Mas, às vezes vemos e não enxergamos. Essa diferença se dá porque o ver, por si só, é fisiológico, material e objetivo. Já o olhar, é mais antropológico, existencial e subjetivo, entrando na esfera da sensibilidade. O ver sem o olhar é pobre e fulgaz, pois se limita ao visível,aquilo que naturalmente se vê e o olhar é cheio de significados e sentimentos.

O olhar intervém, penetra, cuida, convida, acolhe, cultiva, purifica, perdoa, revela, humaniza, atrai, é então, "janela da alma e espelho do mundo". Os amantes sabem muito bem disso. Como diz Adélia Prado, uma escritora brasileira: "Quando a gente está apaixonado, quando a gente experimenta a paixão, você quer segurar a pessoa e falar: "Fica na minha frente para eu te olhar...". Não precisa nem casar, é só olhar, é só olhar..."

Na Bíblia, podemos ler a história de Zaqueu, um cobrador de impostos que vivia ilicitamente. Jesus chegou e não lhe disse nada; não o acusou nem o chamou de desonesto. Apenas o olhou. Penetrou em seu coração e lhe convidou para seguí-lo. Há também a história de Maria Madalena, que com o olhar misericordioso de Jesus foi perdoada, amada e compreendida. E, como não lembrar de Pedro, que negou seu Mestre por três vezes, mas, ao cruzar seu olhar com os de Jesus, "chorou amargamente". Porquê? Esperava um olhar de ódio e recebera um olhar intenso, cheio de amor...

A habilidade nessa arte consiste então em primeiro deixar-se ser olhado constantemente pelo olhar rico e fulguroso de Deus, que também deseja ser olhado por nós, para a partir dessa experiência de amor, saber demorar o olhar, saber fixá-lo, "saber falar com o olhar e saber, através dos olhos, ressuscitar os vivos, e observar nos outros o próprio Cristo". "ATerceira via", um poema de Adélia Prado nos remete bem na essência desse olhar:

Meu espírito - que é o alento de Deus em mim - te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, extático-
Francisco e o Serafim, abrasados -,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando...

Artigo escrito por: Waleska Bezerra
Noviça I - Comunidade de Aliança - Missão Fortaleza


Quadro pintado por: Leonice Araújo
Consagrada Comunidade de Vida - Missão Tatuí

O tempo que tenho

Tempo tempo
Tempo passa
Quando pára
perde tempo
vira o verso
vira a vida
quando anda
o movimento

Tempo tempo
Tempo curto
E nem curto
O momento
Sigo mudo ,cego e surdo
Tempo passa como o vento

Tempo tempo
E nem tento
Nem mergulho nessa graça
Tempo vil
Da vida fio
Tempo vem e tempo passa

Tempo tempo
Tapo e penso
Que o tenho em minha mão
Tempo chega e sai correndo
Tempo toca sem razão

Toca tempo
Tempo pula
Tempo foge escorrendo
Todo dia tenho tempo
E todo tempo não entendo
Tempo tempo
Vai embora
Tenho tempo
e jogo fora.

Por: Juliana Cristina
Consagrada Comunidade de Vida – Missão Várzea Paulista