Javé-Yiré


“Eis-me aqui”, resposta que ecoa nos ouvidos de Deus. Grito de quem não se escondeu, determinação de abandono no desígnio daquele que lhe chamou pelo nome. É chegado o tempo. Naquele dia, o pedido foi uma lança fincada no peito, um ato que custaria aquilo que era amado com predileção: o seu próprio filho. O menino era o descendente da promessa, nascera em conseqüência de um milagre realizado em sua vida: sinal de Deus que rompe a membrana do ordinário, manifestação da sua benevolência. Aquele que lhe dera o que de mais precioso ele tinha, agora o pedia como vítima de expiação. O entardecer daquele dia dava lugar à noite que anunciava uma resposta afirmativa e resoluta, marcada pela dor profunda da alma, o rebento amado seria devolvido numa imolação do seu próprio ser. As trevas daquela noite não se despediram ao amanhecer. A escuridão fazia parte do itinerário até o lugar do holocausto. Abraão se levantou cedo, acordou o menino, preparou com suas próprias mãos a lenha necessária para a dilacerante oferta e se pôs a caminho. O que se passava na alma deste homem era um misto de escuridão e dor. A estrada que ele trilhava agora era o abandono, as setas indicavam o lugar da oblação. A peregrinação seguia sem entendimento, restando-lhe somente a certeza da sua escolha: fazer a vontade do seu Deus. O menino em seus braços, uma pergunta. A resposta veio de suas entranhas: “Deus providenciará”. No terceiro dia, ele viu, ao longe, o lugar da imolação. Não desistiria jamais. Preparou o altar e, num ato de despojamento e confiança, pôs seu estimado filho sobre a lenha, para o holocausto. A navalha, firme em suas mãos, foi erigida com a força sobrenatural que estava nele. Naquele mesmo instante, ouviu-se um clamor. A voz, doce e inconfundível, gritou seu nome, e mais uma vez seu brado foi: “Eis-me aqui!”. É chegada a providência. O sangue derramado não foi o do menino – em suas mãos – marcas da sua entrega, registro de um amor oblativo.
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Artigo escrito por Kilvânia Bezerra, ela é Noviça I da Missão Fortaleza, e mantém o Blog: http://palavrasemsementes.blogspot.com/

2 comentários:

  1. Kil,
    O "holocausto do filho" sempre me toca profundamente. Na vida missionária vivo constantemente meus "holocausto do filho", a oferta das coisas que me são caras.
    E como o texto bem narra, vivo também as alegrias da providência e do amor.

    Bjão

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  2. Kil, vc é demais!!
    Tenho o privilégio de ser não só sua fã, mas sua amiga!

    Deus nunca nos decepciona!
    Bjão

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